Por: José Morais
A quinta‑feira da Ascensão, celebrada cerca de quarenta dias após a Páscoa, continua a ser um dos rituais mais enraizados no imaginário rural português. Conhecida como “Dia da Espiga”, esta data mistura religiosidade católica, simbolismo agrícola e ecos de antigas tradições pagãs, revelando como o calendário cristão absorveu práticas muito anteriores ao seu tempo.
De madrugada, era costume que
rapazes e raparigas partissem para o campo em busca de espigas maduras e flores
silvestres. O gesto, aparentemente simples, escondia um forte simbolismo
social: a espiga, já dourada, era oferecida à rapariga como sinal de que também
ela “florescia” para a vida
adulta. Era, na prática, um ritual de cortejo, uma forma subtil de aproximação
e, muitas vezes, o início de futuros namoros.
O ramo recolhido composto por
espiga, malmequeres, papoilas, oliveira, videira e alecrim era depois guardado
durante um ano, pendurado dentro de casa, como amuleto de abundância, proteção
e boa sorte. Só era substituído no “Dia da
Espiga” seguinte, num ciclo
que reforçava a ligação entre a comunidade, a natureza e o tempo agrícola.
Especialistas em tradições
populares recordam que este costume tem raízes muito mais antigas, ligadas às
festas pagãs da deusa Flora, celebradas na mesma época e associadas ao
renascimento da vegetação. A tradição das “Maias”,
ainda hoje viva em várias regiões, partilha essa mesma herança de celebração da
fertilidade e da primavera.
A quadra
popular que atravessou gerações mostra bem a expectativa e a magia que
envolviam este dia:
*Quinta‑feira d’Ascensão,
Se os passarinhos o sabiam,
Não comiam nem bebiam,
Nem punham os pés no chão. *
Um ritual
que resiste ao tempo
Apesar da modernidade ter
afastado muitos dos costumes rurais, o “Dia
da Espiga” continua a ser
celebrado em várias localidades, com romarias, feiras, recolhas comunitárias de
ramos e atividades escolares que mantêm viva a memória coletiva. Em algumas
regiões, o ramo ganhou novas leituras: é visto como símbolo de
sustentabilidade, de ligação à terra e até de identidade cultural.
O que o
ramo representa hoje
Espiga — pão e abundância
Oliveira — paz
Videira — alegria
Papoila — vida
Malmequer — ouro e prata
Alecrim — força e saúde
Cada elemento reforça a ideia
de que este ritual é, acima de tudo, uma celebração da esperança.
Valor
acrescentado: a atualidade da tradição
Num tempo em que se fala cada
vez mais de sustentabilidade, raízes culturais e bem‑estar emocional, o “Dia da Espiga”
ganha novo significado. A ida ao campo, o contacto com a natureza e o
gesto de colher um ramo que simboliza prosperidade tornam‑se quase um manifesto contra a
pressa do quotidiano. É uma pausa, um regresso ao essencial.
O “Dia da Espiga” não é apenas uma
tradição antiga é um lembrete de que a ligação à terra continua a ser um dos
pilares da identidade portuguesa.
*Quadra retirada do livro
“Salvador Barquinha D’ Oiro, de Albertino Calamote.


